Andrew Downie é o autor de Epic: the Many Lives of Pelé. O livro será publicado no Reino Unido em 5 de novembro, por ora apenas em inglês. Ele escreveu anteriormente Doutor Sócrates e México 70, os dois pela editora Grande Área. Epic poderá ser comprado pela Amazon e outras plataformas eletrônicas. Downie escreveu o texto a seguir com exclusividade para VEJA.
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A história é como água. Algumas vezes, corre feito um rio, em constante mudança. Outras vezes, fica parada, como num lago. Quando chove, a água corre, se agita, se expande e recua. Nada permanece igual. A história, e nossa forma de enxergá-la, muda o tempo todo.
Em julho de 2012, a Espanha venceu a Eurocopa e coroou um império que incluiu três grandes títulos sucessivos, estabelecendo a seleção europeia como uma das maiores do esporte. Pouco depois da vitória na Euro, Pelé apareceu como convidado especial em uma coletiva de imprensa realizada em São Paulo.
O evento foi organizado pelo Santander, patrocinador da Taça Libertadores. A coletiva ocorreu na tarde anterior à segunda partida da final entre Corinthians e Boca Juniors. A tensão era imensa, e aproveitei uma oportunidade para relaxar o ambiente. Perguntei a Pelé: “quem ganharia um embate entre a Espanha de hoje e o Brasil de 1970?”
Ele adorou a pergunta e sorriu com malícia. “Se eu estivesse jogando, a gente ganhava, sem dúvida”, disse, provocando risadas gerais. O Brasil de 1970, por tanto tempo o padrão-ouro do futebol internacional, tinha jogadores melhores em quase todas as posições, ele argumentou. A Espanha, um time em que Iker Casillas, Carles Puyol, Sergio Ramos, Xavi, Iniesta, David Villa e Fernando Torres estavam todos no auge, não era tão boa. “Essas comparações sempre vão existir, mas não dá para comparar individualmente”, disse Pelé. “Individualmente, o time de 1970 tinha muitos jogadores melhores que a Espanha, que tem dois ou três excelentes nomes. Enquanto estiverem comparando outras seleções com o time de 1970, é porque o de 1970 é melhor.”
Era um argumento antigo, cujas variantes Pelé repetiu muitas vezes. Contudo, era o século XXI, e as coisas estavam mudando. Novas estrelas, lideradas por Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, representavam uma ameaça à hegemonia de Pelé, tal qual Diego Maradona havia representado tempos antes. E Pelé, mais uma vez, estava na defensiva. Ele passou a usar as redes sociais para amplificar suas próprias conquistas e diminuir as de seus rivais. Havia algo deselegante nessa campanha, mas Pelé tinha boas razões para se preocupar. Jovens que nunca o tinham visto jogar simplesmente não acreditavam que ele fosse tão bom quanto seus pais e avós diziam, e realmente não acreditavam que ele tivesse marcado tantos gols. Desacreditar suas conquistas virou moda, fomentado por torcedores partidários interessados em promover a geração atual e sua busca por recordes.
Messi e Cristiano Ronaldo marcaram gols apenas por diversão, e não houve meio de evitar os clipes de melhores momentos na televisão, nos celulares e nas redes sociais, registrados de todos os ângulos. Os gols de Pelé não tiveram, nem de longe, a mesma onipresença. Apenas cerca de metade de sua carreira foi filmada, e alguns dos lances mais geniais se perderam para sempre, testemunhados apenas por quem estava nas arquibancadas. Um exército de guerreiros dos teclados, incitado por âncoras de TV e colunistas que ignoraram a distorção imposta pelos tempos recentes, diminuiu os resultados de Pelé.
As competições em que ele jogou foram rebaixadas à categoria de futebol de várzea. Os gols marcados nos campos de terra da Bahia e de Batatais foram, de alguma forma, considerados menores do que aqueles feitos nos impecáveis gramados modernos de Manchester e Madri.
Torcedores mais jovens, ofuscados pela globalização que enalteceu a Liga dos Campeões, foram levados a crer que quem não tivesse jogado na Europa não podia ter sido lá essas coisas. Não importava que, nos anos 1950 e 1960, o Brasil fosse para o futebol o que a Grã-Bretanha foi para a música nos anos 1960 e 1970, ou o que a Califórnia foi para a informática nos anos 1980 e 1990. Pedir a alguém criado no futebol moderno que entendesse o mundo de Pelé era impossível. Era como pedir a um garoto acostumado ao Spotify que apreciasse a maravilha do gramofone.

Outro problema para Pelé era que os torcedores modernos pouco se importavam com o passado. Os jogadores de hoje são mais fortes, mais rápidos e têm mais preparo físico do que seus antecessores, isso todo mundo sabe. As exigências psicológicas são incomparáveis, e os sacrifícios exigidos são muito maiores. Mas também não há mais entradas por trás nem como cuspir no rosto do adversário sem ser flagrado. Não há necessidade de voar de classe econômica em voos transatlânticos nem de fazer longas viagens rodoviárias até os jogos fora de casa. Durante boa parte da carreira de Pelé no Santos, os jogadores viajavam de táxi, às vezes cinco espremidos num carro só, em trajetos de quatro horas por estradas esburacadas. E Pelé raramente jogava em casa. Ele vestiu a camisa do Santos mais de 1 100 vezes, mas apenas cerca de 200 de suas partidas foram na Vila Belmiro. Menos de 300 de seus gols foram marcados lá.
Hoje, os elencos têm o dobro do tamanho e são revezados a cada partida. Antes e depois dos jogos, há psicólogos, nutricionistas, cientistas de dados, fisioterapeutas, analistas de vídeo e treinadores de desempenho mental para ajudar os jogadores a se prepararem e se recuperarem. É claramente mais fácil brilhar em gramados mais planos, usando chuteiras mais macias, com uniformes mais leves e chutando bolas mais redondas.

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A chegada de uma nova gestão no futebol levou Pelé a baixar o tom de sua cruzada. Mas as dúvidas sobre a contagem de seu total de gols só cresceram, e virou moda desprezar a importância de vários de seus tentos. Os critérios em torno deles sempre foram uma questão, desde a época do seu milésimo gol, em 1969. Mas isso ganhou uma importância ainda maior no novo século. Desacreditar a contagem de gols de Pelé tornou-se uma obsessão não apenas para torcedores de Messi ou Cristiano Ronaldo ávidos por reivindicar novos recordes, mas também para uma imprensa cada vez mais partidária, estranhamente determinada a minar o feito de Pelé.
A maior questão era uma incompreensão moderna do que constituía um amistoso. A obsessão do futebol por neologismos, nos anos 2010, levou a classificar jogos amistosos como ‘não oficiais’, um termo enganoso, no mínimo. Os amistosos – e certamente os disputados pelo Santos – eram quase sempre oficiais, sancionados pelas federações nacionais e disputados sob as regras estabelecidas do futebol.
Uma descrição mais precisa talvez fosse “não competitivos”, mas até isso estava errado, porque, quando o Santos excursionava pelo mundo, os adversários jamais se entregavam. Os times contra os quais jogavam se sentiam honrados por estar no mesmo gramado que eles e davam tudo de si para provar seu valor.
Era difícil argumentar que gols marcados contra a Marinha do Brasil ou o time B do Exército tivessem o mesmo peso dos marcados por clube e seleção. Mas Pelé marcou apenas treze gols contra os militares (segundo sua própria contagem), e, para cada gol contra o Boston Astros ou a seleção da Indonésia, havia muitos outros contra times como Inter de Milão, River Plate e Napoli. Ele marcou um hat-trick numa vitória por 5 a 3 sobre o então campeão espanhol Atlético de Madri, e quatro numa vitória por 5 a 2 no Eintracht Frankfurt, apenas dois meses antes de o Manchester United ter dificuldade para empatar em 1 a 1 lá. Em 1959, marcou quatro contra a Inter de Milão numa vitória por 7 a 1 e, três dias depois, fez dois gols contra o campeão espanhol Barcelona, numa vitória por 5 a 1 que o técnico interino do Barça, Enric Rabassa, chamou de ‘extraordinária, tanto individualmente quanto como time’.
Pelé marcou contra Juventus, Lazio e Hamburgo; contra Dínamo de Zagreb e Estrela Vermelha de Belgrado; contra Anderlecht, Panathinaikos e Feyenoord. Fez oito gols em sete jogos contra a Inter de Milão, seis em cinco contra a Roma, e dez em sete partidas contra o Benfica. O Santos era tão bom – e os adversários estavam tão desesperados para competir – que alguns times chegaram a contratar reforços externos para não passarem vergonha. O time do Barcelona que venceu o Santos por 2 a 0 em junho de 1963 contava com dois jogadores do Valladolid convocados só para aquele jogo, para reforçar a equipe.
Os jogos sul-americanos eram ainda mais competitivos, e o retrospecto de Pelé ali era igualmente impressionante. No Chile, em 1965, o Santos venceu a seleção checa por 6 a 4, apenas três anos depois de a Checoslováquia ter perdido a final da Copa do Mundo naquele mesmo estádio. Pelé marcou um hat-trick numa partida que ele às vezes chamava de sua melhor atuação individual de todos os tempos. No mesmo ano, fez quatro gols em dois jogos contra a Universidad de Chile e três em quatro jogos contra o River Plate. A goleada do Santos por 8 a 3 sobre o Racing, em 1962, foi a maior derrota já sofrida por um campeão argentino em casa. Em oito jogos contra o Boca Juniors, Pelé marcou seis vezes, e o Santos perdeu apenas uma vez.
Para os rivais do Santos, aqueles jogos de excursão serviam como um parâmetro pelo qual se mediam. Quando alguém sugeria que os jogos eram não oficiais ou sem importância, eles riam. “Como se diz nos Estados Unidos, ganhar não é tudo, é a única coisa que importa”, me disse António Simões, o ponta do Benfica e da seleção portuguesa que enfrentou Pelé várias vezes por clube e seleção. “Não importava para nós se era amistoso ou não, a gente ia lá para ganhar.”
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Pelé entendia o apelo tanto de Messi quanto de Cristiano Ronaldo, mas não a ferocidade de seus torcedores. A maioria de seus fãs foi criada numa dieta de Liga dos Campeões de ponta a ponta e não conseguia acreditar que o futebol brasileiro dos anos 1960 fosse tão competitivo quanto a La Liga dos anos 2010. Apontar que mais times venceram o Campeonato Paulista durante a época de Pelé no Santos do que venceram a La Liga durante a passagem de Messi e Cristiano Ronaldo pela Espanha era inútil. Os fatos eram abafados pela torcida organizada.
A imprensa também estava cega para o passado do futebol pelo brilho ofuscante do presente. Para uma leva de jornalistas esportivos criados na imediatez das redes sociais, dos canais de esporte 24 horas e dos jogadores como produtos, o futebol da época de Pelé era tão relevante quanto a invasão holandesa de Pernambuco. Pelé não conseguia esconder sua irritação e reagiu da única forma que sabia. “Tem gente que faz comparação com coisa que nem tem”, disse para a Folha de S. Paulo, perguntado se Messi era o maior. “Como é possível comparar uma pessoa que cabeceia bem, chuta com o pé esquerdo e com o pé direito, com outra que só chuta com um pé, só tem uma habilidade e não cabeceia bem?”
O desarrazoado debate continuou durante anos. Pele vestiu uma coroa e uma capa de arminho, e foi fotografado em um trono; Messi participou de uma sessão fotográfica com cabras de verdade (GOAT, o acrônimo de greatest of all time, o maior de todos os tempos, é cabra, em inglês). Cristiano Ronaldo, vencedor de cinco Bolas de Ouro, declarou abertamente ser melhor que ambos.
Os empresários de Pelé sabiam que era preciso um recomeço. Seu cliente não conseguiria vencer um conflito nas redes sociais em que seus oponentes tinham bazucas e ele carregava um mosquete. No início dos anos 2020, sua equipe passou a moderar suas alegações e a incentivá-lo a ser mais magnânimo. Ele se sentou com Kylian Mbappé numa reunião organizada por seu patrocinador de relógios, elogiou o também lusófono Cristiano Ronaldo e, quando Messi quebrou seu recorde de gols “competitivos” marcados por um único clube, publicou uma mensagem sincera de parabéns.
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As atuações incríveis de Messi na Copa do Mundo de 2026 turbinaram o debate. Desde o início da Copa, em 11 de junho, o argentino tem sido consagrado da mesma forma que Pelé foi depois de 1970. Um jornalista britânico o chamou não apenas de o maior jogador de todos os tempos, mas o maior “de longe”. O Financial Times descreveu o jovem de 19 anos Lamine Yamal como o jogador mais bem-sucedido da história em sua faixa etária. E a revista New Yorker, publicação famosa por seu rigoroso trabalho de checagem de fatos, afirmou não haver mais debate sobre quem era o maior jogador de todos os tempos.
É uma afronta a Pelé, assim como à análise e ao jornalismo, mas não há como fugir da realidade. É difícil descrever o brilhantismo de Pelé para quem nunca o viu jogar. O grande problema é que as pessoas simplesmente não se importam mais.
Como alertou há poucos dias o grande Rodrigo Mattos, um dos analistas mais perspicazes do Brasil: “Eu já tô vendo aqui no exterior é que não tá nem mais tendo debate, tipo assim, é, Messi, então é melhor que Pelé. Eles estão colocando como posto que o Messi é o maior de todos os tempos… Acho uma injustiça com Pelé.”
Quando comecei a escrever minha biografia de Pelé, em 2017, o plano não era produzir um manifesto declarando-o o maior de todos os tempos. Mas o livro, intitulado Epic: the many lives of Pelé, pode ser considerado uma defesa, um documento a ser apresentado sempre que seus feitos forem menosprezados. Muitos dos que declaram Messi o maior de todos não faz ideia do que Pelé fez e do contexto em que o fez. Messi precisa ser respeitado. Ele é um candidato real ao título de maior de todos os tempos. Se vencer uma segunda Copa do Mundo seguida contra a Espanha, terá alcançado um novo patamar, e o terá feito com estilo, alma e raça.
Mas, antes de comparar os dois, é preciso conhecer a história. É preciso conhecer o contexto, as nuances, o pano de fundo e a cultura. A história importa. Mesmo que esteja sempre mudando.
Fonte: veja.abril.com.br
